Reflexões Inquietas

OS TRÊS DRAGÕES DA CHINA: MAO, DENG e XI de Gilton Carneiro dos Santos

a grande muralha da China

Gilton Carneiro dos Santos é o autor do texto a seguir. Ele nasceu em Miguel Calmon, em junho de 1950, e viveu em Inhambupe e Serrinha, todas na Bahia.

É economista aposentado do Banco Central do Brasil onde trabalhou no Departamento Econômico, em São Paulo e Brasília. É graduado pela FEA/USP e mestre em Economia Aplicada à Administração. Acumula inúmeras menções honrosas por seus trabalhos, como a monografia O Japão e o Desenvolvimento Econômico do Brasil, láurea concedida pela Câmara de Comércio Brasil-Japão, em 1988, e outra monografia acerca de A Dívida dos Estados, que recebeu o III Prêmio de monografias da Secretaria do Tesouro Nacional. Fez, também, um artigo publicado pela Revista de Economia Política acerca de bancos credores e dívida externa do Brasil.

Preocupado com o desenvolvimento econômico do Brasil e de suas regiões mais pobres, sempre teve atração por conhecer exemplos externos vitoriosos. Tal é o caso da China que, com mais de quatro mil anos de idade, mostra-se mais jovem que outros países que já brilharam no mundo, mas que se mostram precocemente envelhecidos.

Este artigo serve como uma espécie de aperitivo para os que se interessam pelo gigante asiático. Depois de mais de dois anos de pesquisa, está próximo o lançamento de um livro que falará dos cerca de cem últimos anos da história da China, ou melhor, das lutas entre o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang, seu adversário pela direita. É, portanto, um livro que tenta descrever os esforços hercúleos daquele povo que estava se libertando do jugo colonial (século de humilhação) e dando os primeiros passos no rumo da construção de uma potência econômica. Três grandes líderes – Mao, Deng e Xi – se destacam, mas não empanam a contribuição de inúmeros outros personagens históricos.

Esta é a primeira contribuição externa ao site Reflexões Inquietas. Espera-se que não seja a última.

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6 respostas

  1. Prezado Gilton, grato pela gentileza do retorno dado aos meus breves comentários.
    Sem dúvida, você tem razão quando diz que um projeto de país (projeto nacional ou, retomando Milton Santos, Octavio Ianni e outros: “projeto de nação”) precisa ser bem estruturado e contar com “adesão maciça”. E menciona algumas importantes contribuições advindas do processo adotado pela China.
    A propósito, vale lembrar que Milton Santos dizia (e o fez, por exemplo, numa entrevista de 1997) que “seria necessário termos um projeto de nação – e nós não temos”, projeto esse que nos permitisse “traçar um destino”, não significando algo imutável (para guardar “para sempre”), mas sim algo que possa mudar, “adaptar-se” à realidade circundante. E citando a Europa como exemplo de região em que via a noção de destino nacional presente, observou que “mesmo dentro de um mesmo país, há divergências. A extrema direita, a extrema esquerda, o centro, todos têm alguma noção de destino nacional. A nação, portanto, discute e produz consensos provisórios, permanentemente revistos. No Brasil, falta a institucionalização dessa atitude. Os partidos políticos faltam a esse seu dever pedagógico”.
    Permito-me acrescentar: não apenas os partidos políticos faltam a esse dever no Brasil. Também a elite econômica brasileira e (até) os meios acadêmicos/intelectuais a ele faltam, em maior ou menor grau.
    A partir da linha de pensamento de Milton Santos, certamente que um projeto nacional, num país que adote o regime “democrático ocidental” em sua “versão contemporânea” (em que a sociedade conta, agora, com a “potência” das redes sociais), tende a ser algo muito mais complexo do que no caso da China, visto que, em tese, não pode ser obra exclusivamente de burocratas, devendo integrar, permanentemente, Estado e sociedade numa perspectiva (digo eu) “dualista”, seja na sua concepção, seja na sua execução.
    Nesse sentido, vale lembrar a ótica, por exemplo, de Peter Evans, que se referiu (em 2013) à necessidade de “uma participação tão ampla quanto possível da população, incluindo, aí, não só as organizações sindicais e associações de diversas áreas, mas também os intelectuais e outros segmentos da sociedade”, tendo-se que apostar, sobretudo, no “desenvolvimento das capacidades humanas que precisam, por sua vez, alcançar uma faixa cada vez mais ampla da população”. O motor do desenvolvimento, diz Evans, deve estar “no aumento da capacidade humana de produzir, de pensar, de criar, etc.”.
    Enfim, partindo do pressuposto de que ao se falar de projeto de país é de desenvolvimento e de política econômica, também, que se está falando, parece claro que a busca de soluções duradouras para o Brasil, na linha do desenvolvimento sustentado/sustentável, exige uma melhoria da qualidade da atuação tanto do Estado (e suas instituições, todas elas), como das classes empresariais (idem), dos intelectuais e dos cidadãos em geral, com a integração permanente de todos em torno de um projeto de longo prazo.
    Nessa linha, algumas teorizações surgiram nas últimas décadas. Schapiro e Trubek, por exemplo, fazem referência, em texto de 2012, às concepções do desenvolvimento como liberdade (Amartya Sen), do desenvolvimento como descoberta (Dani Rodrik e Ricardo Hausmann), etc., que trouxeram novas proposições no tocante ao relacionamento entre Estado, sociedade e mercados, além da indicação de novos vetores na linha do diálogo horizontal e do pragmatismo democrático, dentre outros.
    É isso, Gilton.
    Um grande abraço.

    1. Gilton disse: Excelente comentário do Zé Luiz. Infelizmente não conheço alguns dos textos citados (falha minha, claro). Mas o tema é empolgante e o grande problema, para mim, é manter a chama acesa permanentemente, fazendo com que os diversos grupos não se sintam desesperançados e colocados à parte no processo. Não podemos deixar a peteca cair. Vamos em frente, incorporando, se possível, vozes dissidentes mas que saibam preservar a democracia e o debate. Um abraço.

  2. Gilton, achei bastante interessante essa sua abordagem acerca das figuras de Mao, Deng e Xi, que constitui, de fato (como consta na apresentação do Luiz Afonso Simoens da Silva neste site), um bom aperitivo para os que se interessam pelo gigante asiático e, por certo, em relação ao seu livro que, ao que consta, está por vir.
    A China constitui, sem dúvida, um país exuberante sob vários aspectos, cujo processo de desenvolvimento, sobretudo nos últimos (quase) cinquenta anos, vem apresentando características notáveis, porém, creio, ainda não satisfatoriamente conhecidas por aqui. Nesse sentido, seu livro será, por certo, muito bem-vindo.
    Com efeito, e sem desconsiderar algumas contribuições (menos ou mais relevantes, conforme a ótica do analista) da era Mao, o que foi e tem sido feito por lá em termos econômicos, sobretudo a partir de Deng Xiaoping (1978), englobando agora (mais recentemente), também uma grande capacidade de desenvolvimento próprio em ciência e tecnologia, é algo surpreendente, especialmente para quem ainda duvida da “potência” de pelo menos três elementos: (1) a definição de um “projeto de país” de longo prazo (que ultrapasse o horizonte de um governo); (2) a capacidade de planejamento (escalonado, com oitiva às bases regionais e uma adequada definição de prioridades); e (3) a educação de qualidade.
    Aliás, no tocante ao item 3, tendo estado por três meses na Universidade da Califórnia/Berkeley, em 1995 (durante o Doutorado), pude avaliar a enorme disposição e o esforço dos asiáticos (notadamente de chineses e coreanos) pela busca de conhecimento, sobretudo em nível de pós-graduação, nos Estados Unidos. Havia inúmeras salas de aula em que a maioria absoluta dos alunos era composta de chineses, coreanos e (em menor escala) japoneses. E isso já vinha ocorrendo, segundo diziam, desde os anos 1980. O resultado não tardou muito (na dimensão histórica do tempo) a vir: Coréia do Sul e China aí estão desde, pelo menos, o final da década de 1990.
    Claro que o regime político “autoritário”, como sugerem alguns analistas, de alguma forma facilitou (e segue facilitando) a manutenção de uma estratégia de longo prazo, mas no tocante à importância (senão indispensabilidade) de um projeto nacional consistente (preferencialmente, aliado a uma razoável capacidade de planejamento público), vários outros países podem ser citados como exemplos nos dois últimos séculos, inclusive o Brasil.
    Nessa linha, vale notar que o nosso processo de Industrialização para Substituição de Importações (ISI), ao “mimetizar” um projeto de país, permitiu que tivéssemos taxas de crescimento “chinesas” por pelo menos três décadas. Não foi pouco. Os “anos dourados”, entre a década de 1950 e início da de 1960 (de que bem falou, em um interessante artigo, Luiz Afonso Simoens da Silva), assim como a base industrial que ainda temos (hoje, é bem verdade, muitíssimo fragilizada), são marcas indelevelmente associadas, em maior ou menor grau, àquele processo.
    No mais, concordo com a sua resposta “aristotélica” à questão sobre as mudanças ocorrerem “devido à sabedoria e determinação de certas personalidades” ou se “o momento histórico é que faz surgir essas pessoas”. Como você bem disse, o certo “é que a ocorrência de circunstâncias favoráveis, simultaneamente ao surgimento de pessoas talhadas para lidar com esses eventos, com poder de liderança e capacidade de discernir os melhores caminhos, é um momento raro que pode desencadear uma explosão de efeitos positivos, suficientes para colocar um país em um novo patamar”. Basta lembrar, por aqui, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, feita a devida contextualização histórica, evidentemente (“vis-a-vis” os ambientes nacional e internacional), dos seus governos.
    Enfim, Gilton, que venha o seu livro!
    Parabéns!

    1. Gilton comentou:
      Oi Zé. Boas observações. Como você bem lembrou, o Brasil já teve alguns espasmos de crescimento contínuo. Pena que nos anos recentes as interrupções e retrocessos passaram a ser mais comuns.
      O que nos falta? Liderança? Oportunidades? Ou seria tudo isso e mais alguma coisa?
      Podemos pensar em um Projeto Nacional. Que, para funcionar, precisaria ser bem estruturado e contar com adesão maciça.
      O exemplo chinês traz alguns pontos importantes: discussões amplas precederam as decisões. Apesar das divergências, o projeto foi implementado e executado anos seguidos. Houve aplicações prévias em áreas restritas, para que se pudesse avaliar a experiência e se proceder às correções necessárias. E só então aplicar em maior escala.
      E o Partido se empenhou em executar as mudanças, pela necessidade de melhorar o padrão de vida da população. Tarefa facilitada por ser um regime de partido único. Mas que poderia ter descambado para uma ditadura sem compromisso com o povo, mas apenas com a cúpula.
      Lembrando ainda o cuidado de se evitar interferência externa, prejudicial ao projeto nacional.
      Enfim, são muitas as questões para serem aprofundadas, o que não cabe aqui.
      Um abraço.

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