Reflexões Inquietas

A riqueza mundial e o “Dinheiro de papel”

The Magnificent Seven

O Valor Econômico (25.07.2026:A15) publicou artigo de Gillian Tett, onde ela defende o ponto-de-vista de que a riqueza está hoje excessivamente dependente do mercado acionário americano.  Seu estudo foi baseado num relatório do McKinsey Global Institute (MGI), que mostra que diversas classes de ativos cresceram além daqueles refletidos em balanços econômicos, levantando a possibilidade de crises recorrentes

O objetivo desta nota é explicitar os números do relatório do MGI e levantar argumentos acerca do futuro próximo. Fala-se das escolhas de vários países, em termos das prioridades seguidas. A ênfase é posta nos modelos americano e chinês:

– Os Estados Unidos tem mostrado sua preferência por opções curtas, em detrimento de investimento de largo prazo. Pode-se dizer que a fase atual de sua economia é rentista. Estariam os EUA flertando com uma nova crise financeira originada na esfera das empresas de inteligência artificial (IA)?

– Estaria a China se excedendo nos investimentos produtivos financiados por endividamento público, como parecem acreditar vários analistas ocidentais? Ou seria esse um modo oriental de enfrentar os problemas do desenvolvimento econômico?x’

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6 respostas

  1. Sim.
    Na China a IA se move em consonância com um Projeto para a construção de uma sociedade socialista (2049), que busca a redução gradativa de setores dominados por uma tradição mercantilista (bens e serviços duráveis e não duráveis) orientada para o lucro. Segundo Elias Kalil Jabour, no livro “Poder e Socialismo”, numa nova formação econômica e social “As novas “forças produtivas de qualidade” devem estar refletidas nas relações de produção de nível superior, e o desenvolvimento das forças produtivas deve estar a serviço tanto da expansão da base material quanto da superação de contradições de outra ordem, como as desigualdades entre classes e regiões e a urgente questão ambiental”
    De modo diverso, os americanos continuam a crer que o individualismo e ações que se antagonizam dentro de um modo de produção gerador de desigualdades e políticas protecionistas, incluindo o uso de violência, possam ser reproduzidas em qualquer lugar.
    A propósito, não apenas a China, mas o modo de produção asiático tem sido objeto de observações.

    1. Caro Carlos Augusto,
      Interessantes suas observações.
      Na China, o objetivo das políticas de IA está voltado para o bem comum da sociedade.
      Nos Estados Unidos, impera uma competitividade destrutiva e onde o individualismo opera no sentido de aumentar as desigualdades sociais.
      O mundo tem estado muito atento a essas diferenças.
      O Presidente americano perde apoios internos e externos com suas agressões militares e tarifárias.
      Xi-Jinping parece ganhar apoios porque é discreto e altamente produtivo e porque defende soluções pacíficas para os conflitos internacionais.
      Caso clássico de “ganhar parado”.
      Abraços,
      Luiz Afonso

  2. Questão bem complexa.
    Comentar um texto com tal densidade de dados e revelador das vulnerabilidades a que os investidores no mercado financeiro americano estão submetidos me impôs buscar um caminho que pudesse me levar à alguma contribuição
    De pronto, registro não ser surpresa que a dinâmica da economia americana nas últimas décadas gerem crises recorrentes, o que o artigo indica ser possível mais uma vez. Por coerência, temos que vinculá-las ao caráter concentrador da renda e da propriedade de ativos, sempre mencionado há décadas.
    Todavia, no período recente, o domínio das empresas “big techs” tem se notabilizado, de novo, por grande volume de investimentos, concentração de capital, LUCROS crescentes e incentivos governamentais de grande relevância – CHIPS Act e inflation Reduction Act (IRA).

    No texto, a autora indica a possibilidade de que distorções de preços no mercado financeiro possam resultar em uma crise. Algo semelhante a da bolha da Internet nos anos 1980.
    Todavia, vale lembrar que na década de 1990 o setor de TI agregou lucros volumosos ao PIB dos EUA, embora muitas empresas tenham sucumbido à concorrência dessa fase do desenvolvimento da indústria; balanços divulgados mais recentemente sustentam que o setor tem superado obstáculos.
    Entretanto, limitando-me à tentativa de identificar a fonte de atuais problemas para o setor de TI dos EUA, e rebate sobre Wall Street, concentro-me na concorrência externa, onde a China desponta como principal ator.
    Mesmo que o volume de capital americano seja maior, os chineses, a partir de ações governamentais, reafirmadas pelo 15º Plano Quinquenal – 2026 a 2030-, têm produzido inovações que aplicadas aos produtos de consumo e exportação transmitem preocupação aos especialistas em avaliação de risco, que percebem o surgimento de uma concorrência perene.
    Vale citar que a nível de e-commerce é possível perceber empresas de cunho regional competirem com a gigante Amazon.com e que a China não é mais um
    “ching-ling” no ramo das tecnologias que dominarão o século XXI, como comprovam o “Deep Seek” e o Kimi3, modelo de IA desenvolvido pela Moonshot, uma startup chinesa.
    Mas, é sempre assim na história do capitalismos americano, lucros surgem ao lado de desaparecimento de ícones do orgulho americano “E La Nave Va”.
    “Clientes da empresa passaram a priorizar servidores, armazenamento e memória, afetando negócios tradicionais da IBM. Executivo diz que companhia ‘não se adaptou rápido o suficiente’. g1 14/07/2026 (CEO da IBM admite impacto da IA nos negócios e ações têm maior queda desde 1972).

    1. Caro Carlos Augusto,
      A questão é, de fato, complexa.
      Ela envolve um processo de financeirização do processo produtivo que seria mais fácil de analisar em outros países, que não os Estados Unidos.
      Seus comentários me lembraram o livro sobre a centralização de capitais financeiros em Hilferding, lá pelo início do século XX.
      O espaço aqui não comporta grandes digressões. De Hilferding, eu só quero recolher a ideia de que os sistemas bancários estariam submetendo a indústria e o comércio a sua lógica. Isso causou muita discussão e foi visto como verdade para a economia alemã e japonesa, mas não para a americana. Apesar de o sistema financeiro americano ser enorme, assim também o são suas indústrias.
      Você enfatiza que “o domínio das empresas ‘big techs’ tem se notabilizado, de novo, por grande volume de investimentos, concentração de capital, LUCROS crescentes e incentivos governamentais de grande relevância”. E a jornalista Gillian Tett vê nisso uma possibilidade de crise. É o que eu também acho.
      A questão fica um pouco mais clara quando o modelo americano é confrontado com o modelo chinês.
      Na China, a preferência parece apontar para a tentativa de dominar todo um sistema de produção específico, mesmo que a rentabilidade do setor não seja das mais altas. A ideia por trás desse comportamento é que haverá maior estabilidade econômica ali onde indústria, comércio e logística andam lado-a-lado. Não será que é esse comportamento o que ocorre com a exploração de terras raras, onde a China é o poder mundial?
      Nos Estados Unidos, ao contrário, a concentração dos investimentos nas “bigtechs” parece estar levando a economia para um desvio perigoso. Há grande desocupação de mão-de-obra para aumentar os recursos a serem aplicados em IA. A luta de empresários para ocuparem a primeira posição na valorização mundial de sua empresa, fala muito de suas vaidades e de suas apostas de curto prazo.
      Enfim, creio que a China tem um horizonte de largo prazo para suas decisões de investimento. Nos Estados Unidos, há muitos egos em disputa e muita vontade para apresentar resultados de curto prazo.
      É claro, como você diz, que as “bigtechs” têm superado obstáculos. Penso, apenas, que há uma concentração brutal de esforços na esfera da IA. A diversificação chinesa parece mais sustentável.
      Obrigado pelos comentários, Carlos.
      Grande abraço,
      Luiz Afonso

  3. Amigo Luizão, gostei muito da sua análise dessa financeirizacao da economia mundial, onde a montanha de papéis/ativos supera várias vezes o PIB mundial. Queria fazer uma provocação para os leitores: se o nível de endividamento da China não preocupa porque existe um nível elevado de reservas internacionais, podemos admitir o mesmo com relação ao Brasil? De qualquer forma parabéns pela oportunidade dessa análise, campeão. Abracasso.

    1. Obrigado, Newton, valeu.
      Talvez, eu tenha sido meio rápido em falar das reservas da China como forma de compensá-la pelo elevado nível de endividamento.
      A questão é que a China conta com uma economia sólida. Além de reservas monetárias, sua forma de produzir bens comercializáveis traz resultados muito positivos e de baixo risco. Indústria, comércio e infraestrutura desenvolvidas são seus suportes.
      Acho que quem deve se preocupar com um nível alto de endividamento são aqueles países que fazem apostas elevadas em projetos de curto prazo e arriscados. Essa me parece ser uma questão dos países ocidentais que estão em transição para economias rentistas, não é mesmo?
      Grande abraço,
      Luiz Afonso

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