
Carlos Augusto Dias de Carvalho é economista formado pela Universidade Federal Fluminense, em 1970, e Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas/RJ, em 1982. Foi economista do Banco Central, onde trabalhou nos Departamento de Operação de Mercado Aberto (DEMAB) e Departamento da Dívida Pública (DEDIP) por 21 anos até sua aposentadoria. Na sequência, foi Diretor Financeiro da Eletrobrás, Coordenador Geral da Indústria do Conselho Interministerial de Preços (CIP/MF) e Gerente Financeiro do Fundo Nacional de Desenvolvimento (FND/MF).
Este documento aborda a reindustrialização verde no Brasil, destacando as potencialidades e estratégias para a transição energética sustentável e inovadora. O processo passa, consequentemente, por uma transformação na matriz energética, na busca por inovação tecnológica e na valorização de industrialização sustentável.
O potencial e maturidade das energias renováveis mostra que as energias eólica e solar estão em expansão, mas o destaque deve levar em conta a exploração offshore e a geração distribuída, além do crescimento do biocombustível e biometano. Para tanto, é necessária uma nova logística integrada e de modernização da infraestrutura de transporte e ampliação de ferrovias e hidrovias. O que se procura é que a expansão de energias renováveis e da infraestrutura favoreça a dispersão da indústria, promovendo crescimento regional e inclusão social.
Pelo lado do financiamento desses novos desafios econômicos, o documento ressalta a essencialidade do apoio do BNDES e da captação de recursos internacionais.
6 respostas
Prezados Luiz Afonso e Carlos Augusto,
Bom dia!
Luiz Afonso, grato pelo link do artigo do Carlos Augusto e parabéns por inserir esse texto no seu site.
Prezado Carlão, parabéns por mais esse trabalho. Você traz um conjunto de informações e dados que, uma vez enfeixados num projeto consistente de desenvolvimento sustentado de longo prazo (à guisa de “projeto de país”), permite que se possa, quiçá, cogitar da (efetiva/definitiva) superação dessa fase de pensamento econômico pobre, anacrônico e sem horizontes para países periféricos/emergentes trazida pelo neoliberalismo codificado pelo Consenso de Washington e materializado a partir de camadas diversas de “ganância rentista”, individualismo extremado e relativa “ignorância” tanto da história econômica, quanto dos conceitos/sentidos de sociedade, de humanidade, de Estado, de regulação, de relações internacionais, etc.
De permeio, seu artigo nos permite renovar a esperança num futuro promissor para o nosso País.
Valeu!
Um abraço,
José Luiz
Caro José Luiz,
Obrigado pelas palavras de introdução ao artigo do Carlos Augusto.
De minha parte, elas apenas seguem o que já é uma realidade: vários trabalhos de nossos amigos já foram publicados e, espera-se, outros podem seguir esse caminho.
Carlos Augusto disse:
José Luiz,
Nesse artigo pretendi ir além de registrar boas informações sobre o crescimento das energias renováveis e superação de gargalos na infraestrutura de transporte brasileira, principalmente ferrovias e portos.
O que enfatizei é o poder transformador que o desenvolvimento das FORÇAS PRODUTIVAS tem proporcionado.
O AGRO, demandando equipamentos industriais tecnologicamente sofisticados, e o setor de AGROSSERVIÇOS já impactam os dados do CAGED, que já comprovam substanciais elevação dos salários do setor no CENTRO-OESTE e MATOPIBA.
Na infraestrutura de transporte ferroviário de carga e metroviário, o estímulo das encomendas à indústria são robustos e inclui benefícios sobre a produtividade do setor. Em paralelo, a implantação de unidades de produção de equipamentos e construtoras chinesas estimulam a concorrência e reduzem custos e prazos na construção de novas ferrovias.
Nos portos, a complementaridade com as ferrovias cria corredores e hubs logísticos que irão alavancar a interiorização da indústria e desenvolvimento do comércio, agora modernizado pelo e-commerce.
Por todo o Litoral brasileiro, portos modernos já exibem a implantação de zonas de processamento industrial, consolidando a articulação da produção brasileira com as correntes de comércio conquistadas mais recentemente ampliadas (Ásia) e criando as bases para o aproveitamento da oferta de energia renovável com baixo custo para a produção hidrogênio verde – H2V – e produtos verdes (aço, cimento, cerâmicas/vidros, e fertilizantes). A propósito, convém registrar o crescimento do transporte de cabotagem que os portos brasileiros têm incentivado, reduzindo o transporte de carga rodoviária de longa distância.
Ademais, destaco a ressignificação da indústria automobilística, a partir da reconfiguração dos veículos leves, médios e pesados por meio da eletrificação pura ou híbrida dos motores a combustão e uso crescente dos biocombustíveis e biometano no transporte pesado, cuja oferta envolve expressivo número de produtores, inclusive pequenos.
Por fim, enfatizo que, salvo a contribuição estruturada do BNDES/NIB, as conquistas registradas ocorreram pela ação de FORÇAS PRODUTIVAS que se moveram mesmo sem um Plano Nacional de Desenvolvimento, ausente há décadas no cenário econômico brasileiro.
Carlão, só agora reli seu texto. Achei muito bom, principalmente, porque leio poucos que se atrevem a analisar propostas nesse sentido. A grande mídia, que nos influencia, exceto o Valor Econômico, pouco se debruça sobre a Revolução verde com vistas a mudar mais rapidamente a transição energética, que vem acontecendo quase silenciosamente. Parabéns por realçar e destacar o que tem acontecido e o que pode acontecer com essa mudança da nossa Matriz Energética. Parabéns pela análise ousada e bem atual.
Carlos Augusto respondeu:
NEWTON,
Fico feliz por você ter absorvido a ideia central do texto.
Como sublinhei, o Brasil recomeça seu progresso econômico e social a partir das potencialidades da economia verde.
O desenvolvimento das forças produtivas vinculadas à agregação de valor dos produtos do AGRO, comodities ou não, e oportunidades derivadas da transição energética, que tão rapidamente está ocorrendo no Brasil, têm transformado nosso parque industrial.
A eletrificação da frota nacional de veículos leves, médios e pesados, de modo puro ou híbrido, já provoca substanciais mudanças na estrutura da indústria automobilística – localização e padrão tecnológico -, ampliadas pelo uso dos biocombustíveis (álcool e milho) e biometano. A repercussão nos preços e alargamento do mercado de veículos já é constatável.
Ademais, a demanda por equipamentos com tecnologias inovadoras pelo AGRO tem promovido a interiorização de sua produção e levado a industrialização à nova fronteira agrícola.
No Centro-Oeste e MATOPIBA surgem núcleos industriais, que finalmente passam a contar com uma infraestrutura de transporte ferroviário e portuária, criando corredores logísticos para insumos e bens finais para o interior do Brasil.
Também, é auspicioso ver que a estrutura portuária deixa para trás o modelo mina/porto e já começa a espalhar indústrias e hubs logísticos por todo o litoral brasileiro.
Constatar o crescimento dos salários médios nas novas unidades produtivas do AGRO, destacando o grande volume de agrosserviços com componente tecnológico moderno, é auspicioso
Simoens disse:
Caro Carlos Augusto, o seu artigo foi muito bem vindo. Parece estar despertando interesse público. Um comentário meu, que acompanhei de perto seu trabalho, já vinha sendo pensado.
Outro dia, assisti a uma entrevista de Glenn Diesen com um economista, de origem coreana, no site dele no Youtube. Ele se chama Einar Tangem.
O assunto era a visão chinesa a respeito da moeda mundial. Numa época de crise do dólar, o Yuan tem sido muito referido como um bom substituto.
Bem, pela ótica da China, não seria bem assim. Como nós já discutimos muito no nosso grupo, o papel de moeda de referência tem seus problemas. Aqui, nós vamos destacar o fato de que há uma contradição no emissor da moeda mundial. De um lado, o dólar se tornou o meio de pagamento preferencial, o que levou o FED a se tornar o Banco Central do mundo. De outro, ele tinha a tendência de se manter valorizado, para que os déficits em transações correntes permitissem que a moeda circulasse pelo mundo. O Trump não topa isso e quer um dólar que permita ao país acumular fortes superávits nas transações externas. Até pode conseguir, mas o dólar está fraquejando muito como moeda mundial.
A China não quer esse papel. O objetivo do país é dominar setores econômicos, ao custo mais baixo possível. Mesmo que alguns setores mostrem baixo retorno, eles podem ser interessantes se seus custos de produção, logística e finanças puderem se manter baixos. Assim é que produzir a baixo custo, ter uma logística adequada e um financiamento com baixa taxa de juros, coloca o país na liderança do processo de industrialização.
Na questão financeira, a China não deve aceitar o papel de moeda de referência porque não quer acumular uma dívida como a americana que está próxima de US$ 40 trilhões e que privilegia setores como a intermediação bancária, que cobra taxas elevadas para enviar/receber recursos para o exterior em transações comerciais. Fala-se que essa dívida estaria crescendo cerca de US$ 2 trilhões a cada ano.
Ou seja, a China quer manter o controle de capitais. O Yuan (renminbi) continuará sob controle estatal.
Eu poderia falar, também, da experiência japonesa, quando, lá atrás, toda a cadeia de produção de automóveis estava sob controle do MITI, o ministério da indústria e comércio do país. O que definia o investimento era a estabilidade nos custos de produção, vendas e finanças. Essas empresas eram, inclusive, estimuladas a comprar ações das outras componentes do acordo.
Enfim, depois de uma volta meio grande, chegamos a seu trabalho. Quando você fala de um forte envolvimento do governo na construção (tardia) de novos ramais ferroviários, rodoviários e portos, ele parece se aproximar dessa abordagem , digamos, asiática.
Na questão da produção, a nova matriz energética privilegia regiões antes vistas como marginais em nosso processo produtivo: o Nordeste por seu clima, que favorece soluções eólicas e solares, e o Centro-Oeste por ser a fonte dos principais componentes das terras raras.
E, no financiamento, você aponta para o BNDES e para captações externas. O BNDES vem se preparando para isso e o Brasil foi o primeiro país da América Latina a comprar títulos em Yuan, com juros muito baixos.
Enfim, lendo seu trabalho, fiquei com a sensação que o Brasil pode estar acordando para um projeto efetivamente sustentável de reindustrialização. Estou certo?
Carlos Augusto respondeu:
Vi o vídeo.
Luiz, poucos países têm autonomia diante das políticas monetária e cambial/tarifária conduzidas pelos EUA.
O Brasil não é uma das exceções.
No grupo já temos consenso que não é interesse da China ser a moeda reserva, a partir de ainda haver forte relevância do setor externo para a economia chinesa.
Entretanto, a difusão de Sistemas de Pagamentos, que não o Swift, tem sido percebida como capaz de fragilizar o dólar.
No plano interno, na ausência de um Plano Nacional de Desenvolvimento, iniciativas dispersas tem surpreendido positivamente – infraestrutura e energias renováveis.
Entretanto, temos que considerar a possibilidade de descontinuidade de ações até aqui positivas. Uma eventual mudança de governo em 2027 pode levar a um retrocesso.
Mesmo assim, as forças produtivas ganharam alguma liberdade. Uma esperança.